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A consolidação do universo digital na visão de Nicholas Negroponte
Um dos primeiros profissionais a difundir o conceito da vida digital que conhecemos hoje, o norte-americano Nicholas Negroponte concedeu uma entrevista ao jornal italiano ‘La Repubblica’. Em Roma, para participar de um evento de ciência, o especialista, um dos fundadores e professor do Medialab, laboratório do Massachussets Institute of Technology (MIT), falou sobre diversos assuntos relacionados à web, como a inscrição da rede como postulante ao Prêmio Nobel da Paz.Confira abaixo as principais declarações de Negroponte, também responsável pela disseminação da campanha ‘One laptop for child’, que disponibiliza computadores de baixo custo para pessoas em países subdesenvolvidos.
Nobel da Paz para a internet
Não sei como é a lógica usada pelos jurados para conceder o Nobel, por isso, não posso fazer previsões razoáveis. Certo é que o prêmio para a internet é mais apropriado do que para Obama. Apresentaremos a candidatura oficialmente em Oslo no dia 1º de fevereiro. A internet, seguramente, é instrumento de paz, é arma de instrução em massa, que está se transformando em arma de construção de massa. Vejo, em todos estes anos, com meus olhos, o crescimento da cultura web nos locais mais distantes do mundo, onde o problema pior não é a pobreza, mas o isolamento.
Os ‘perigos’ da internet
Precisamos separar as coisas quando falamos de perigos na rede. Em primeiro lugar, a educação é perigosa e reprimida, como acontece, não por acaso, em países em que não há democracia. A segunda coisa é a liberdade de expressão. É verdade que a realidade da rede ainda é confusa, às vezes caótica, e possui muitas coisas que não gostaríamos de ler e ouvir, mas isso é a riqueza da web, e não um defeito. A internet é um instrumento, assim como os telefones celulares, usados mais facilmente por terroristas e bandidos. Nem por isso se diz que os telefones celulares são perigosos e que as conversas devem ser limitadas. Seria igual se criticássemos as editoras pela publicação de livros ou jornais ruins ou deixássemos de usar o e-mail por recebermos mensagens indesejadas e spams.
A internet gerando paz
A rede sempre mostra exemplos de coisas que mudam para melhor com o tempo. Os comentários negativos na Wikipédia, por exemplo, acontecem cada vez mais raramente. O ponto de vista coletivo é sempre melhor, propõe algo na direção da melhora. É verdade que não será possível criar um instrumento que gere a paz, mas é bom lembrar que as vozes que fomentam o ódio on-line não têm grande público, falam apenas para aqueles que querem ouvir, não atingem a maioria.
A mobilidade
É uma coisa extraordinária, mas ainda limitada pelos produtores de hardware. O iPhone, por exemplo, é um instrumento muito útil, mas ainda possui fortes limites estruturais. Os tablet poderão ser uma grande novidade. Vi muitas máquinas novas serem apresentadas nas últimas semanas, mas, provavelmente, o produto da Apple, que todos esperam, estabelecerá um novo modelo.
O futuro dos impressos
A carta acabará, mais cedo ou mais tarde. Eu sou um exemplo, uso pouquíssimo. As poucas cartas que recebo, escaneio e transformo em e-mail. Os jornais, leio on-line; os livros, em e-books. Escrevo sempre no computador, e é raríssimo quando tenho uma folha de papel comigo. Os jornais em papel acabarão, mas não o jornalismo, que continua crescendo nos últimos anos. Não acabará o jornalismo investigativo e de pesquisa, que encontrará novos suportes para basear seu desempenho.
Autoritarismo e veracidade na web
Ao pesquisarmos as notícias em um site de busca, os resultados de sites jornalísticos e de blogs estão no mesmo nível aos olhos dos leitores. A diferença entre um blogger e um jornalista, hoje, é que o segundo é um profissional pago e o primeiro, não. Mas isso também mudará. A realidade é que estamos apenas no início de um novo e longo percurso, e que durante esse percurso surgirão realidades novas e autoritárias. As velhas instituições culturais se consolidaram durante muito tempo, e não se pode pedir que a internet crie instituições novas e críveis em tempo tão curto.
Fonte: Marcos Moura, entrevista foi concedida ao jornal italiano ‘La Repubblica’, www.zuf.me/738

